Esperança, substantivo feminino
Depois de ontem, um recado para quem quiser ouvir e receber: a rua, o Rio de Janeiro, o Brasil, a América Latina e toda Abya Yala: esperança.
Esperança, substantivo feminino é um trabalho que nasce depois de uma experiência de violência vivida. Uma tela de celular printada que vira um lambe. O celular que, durante a troca de tiros, pipocava com mensagens de preocupação é o mesmo que tirou as fotos e é onde escrevo este texto. O lambe, aplicado pela segunda vez depois de molhar e rasgar, vai para o mesmo lugar onde a violência ocorreu com uma mensagem: esperança.
Quando a coisa apertou, mandei mensagem para a minha mãe, que me respondeu me acalmando. Daí o nome: esperança.
Daí que o choro de quem perdeu um filho ecoa. Daí que as pessoas saindo assustadas depois de tudo. Daí que o sangue nas calçadas. Daí que as memórias. Daí que o trauma. Os sons. A tristeza. Tudo. É possível ter esperança na dor mais aguda da vida?
Pessoas se consolam. Não diminui a dor, os gritos, revolta, saudade, arrependimentos. É o que dá pra fazer. Nesses abraços de consolo vejo muitas coisas, das quais destaco esperança.
Horas depois, lavando as calçadas cheia de sangue, podando uma árvore, um vizinho diz: “não é isso que vai tirar a nossa alegria de viver”: esperança.
Com toda a solidariedade, respeito e humildade peço licença para desejar a todos que mantenham a esperança. Quem tá aqui, não tem jeito, tá sempre com ela.
Esperança, substantivo feminino.
Lambe. 160x72cm